Reggae se despede de uma guardiã do vinil Sônia Soares, referência histórica da cena reggae brasileira
O reggae amanheceu mais silencioso. Faleceu nesta quinta-feira (01) Sônia Soares, considerada a maior colecionadora de reggae em vinil do Brasil e uma das mais importantes pesquisadoras, difusoras e guardiãs da memória do ritmo jamaicano no país. Mulher de coração livre, alma leve e consciência crítica, Sônia construiu sua trajetória pautada pela resistência cultural, pela liberdade e pela firme oposição ao fascismo, à opressão e a todas as formas de autoritarismo.
Pioneira desde o início dos anos 1980, Sônia iniciou sua caminhada na histórica Toca do Reggae, um dos primeiros espaços dedicados ao gênero em Belém, ao lado dos articuladores fundadores do movimento reggae na cidade. Em um período em que pouco se discutia políticas culturais, preservação de acervos ou acessibilidade, ela já atuava com independência, coragem e compromisso, ajudando a abrir caminhos que hoje sustentam gerações de pesquisadores, DJs, colecionadores e militantes da cultura reggae.
Sua atuação foi decisiva para consolidar Belém do Pará como um dos territórios mais vivos e autênticos do reggae no Brasil. Reconhecida nacional e internacionalmente, Sônia construiu um acervo singular, formado por milhares de discos de vinil que ultrapassam o valor material: são registros de resistência, memória, identidade e luta do povo negro e da diáspora africana.
Viajou pelo mundo, Sônia esteve diversas vezes na Jamaica e em Londres, principais polos históricos do reggae, sempre em busca de raridades, prensagens originais, matrizes sonoras e conexões com artistas, produtores e pesquisadores. Todo esse conhecimento era compartilhado de forma generosa com a cena local, fortalecendo o diálogo entre o reggae amazônico e suas raízes globais.
Mais do que colecionadora, Sônia Soares foi pesquisadora, formadora de opinião e referência ética e cultural. Detentora de um dos maiores acervos de reggae do país, sua contribuição foi fundamental para revelar conexões históricas da cena reggae em Belém com o movimento internacional, além de registrar, em vida, sua própria caminhada pelo ritmo jamaicano no Brasil e no mundo.
A despedida de Sônia Soares deixa uma lacuna imensa na cultura reggae brasileira, mas também um legado incontornável. Sua história permanece viva nos discos, nas pesquisas, nas pistas de dança, nas rodas de conversa e na memória coletiva de quem acredita na cultura como instrumento de transformação social.
À família, aos amigos e a toda a comunidade reggae, nossos mais sinceros sentimentos. A família informou, por meio das redes sociais, que o corpo foi velado na Max Domini até as 08h deste sábado (03), na Avenida José Bonifácio.




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